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Neurofeedback no Síndrome de Down

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Na nossa clínica, é-nos muitas vezes colocada a questão acerca da eficácia do tratamento com recurso ao Neurofeedback em quadros muito particulares nos distúrbios do desenvolvimento. Entre eles, é costume ser-nos colocada essa questão quando referida a quadros do espetro do autismo, ou a crianças com Síndrome de Down. Neste artigo iremos apresentar alguns resultados e particularidades da intervenção com recurso ao Neurofeedback junto deste último quadro.

O Síndrome de Down é uma anomalia genética, que se caracteriza pela presença parcial ou total de um terceiro cromossoma 21. Esta anomalia reflete-se em caraterísticas fenotípicas evidentes, das quais se destacam o atraso no desenvolvimento infantil, as feições faciais caraterísticas do quadro, e a deficiência mental, de leve a moderada.

Sendo um quadro clínico de origem e causa genética, quando nos referimos à intervenção com recurso ao Neurofeedback junto desta população não nos referimos a uma cura. O Síndrome de Down não tem, infelizmente, cura, e pensar em tal possibilidade com recurso ao Neurofeedback seria desprovido de sentido. No entanto, tal como junto de outros quadros severos dentro dos distúrbios do desenvolvimento, o Neurofeedback pode-se apresentar como uma forma viável de melhorar a condição da pessoa com Síndrome de Down, em particular na forma como este distúrbio interfere com as capacidades de atenção, memória, percepção, de resolução de problemas ou de interação social.

Neste artigo iremos apresentar alguns resultados da intervenção com recurso ao Neurofeedback junto da B., uma criança do sexo feminino com 15 anos de idade e diagnosticada com Síndrome de Down.

Tal como em qualquer outro caso, o tratamento junto da B. teve início com a realização de um eletroencefalograma quantitativo e consequente elaboração do mapa cerebral, ou brainmapping (ver artigo “EEG Quantitativo e Brainmapping”). O mapa cerebral decorrente da avaliação da B. é apresentado na Figura 1 em baixo:

Figura 1

A B. realizou um total de 20 sessões de Neurofeedback, entre Março e Maio de 2019. Os resultados decorrentes da intervenção estão apresentados na Figura 2:

Figura 2

Por uma questão de rigor, importa referir que a realização do EEG Quantitativo junto da B. foi difícil, com pouca colaboração por parte da utente, pelo que é possível que os resultados da primeira avaliação estejam parcialmente contaminados com atividade externa à atividade cerebral real registada pelos instrumentos. Estes artefactos são normalmente registados na banda de frequências do tipo Delta e do tipo High Beta, dependendo se são causados maioritariamente e respetivamente por movimentos ou por atividade muscular.

Ainda assim, parece evidente que a B. beneficiou da intervenção com uma redução significativa da incidência dos ritmos mais lentos produzidos pelo cérebro, nomeadamente com a redução na incidência dos ritmos Teta e Alfa, bem como do ritmo Delta, pese embora a suscetibilidade desta banda de frequências a artefactos. Essas diferenças são evidentes na comparação das duas avaliações.

Mais importante num caso como o da B. será o feedback de pais, cuidadores e professores no final deste período de intervenção. Os pais referem mudanças comportamentais importantes: “A B. parece mais conversadora, e dá-nos respostas mais espontâneas durante as conversas. Parece menos preguiçosa e menos teimosa. Ajuda mais em casa e parece mais ativa”. Já os professores têm transmitido um feedback positivo relativo à evolução cognitiva da B.: “A B. mostra uma melhor atitude e postura; consegue estar atenta durante mais tempo e com mais qualidade”.

O Neurofeedback, tal como noutros quadros clínicos em que existe um distúrbio vincado no desenvolvimento, apresenta-se como uma via importante e potencialmente muito proveitosa para pessoas com Síndrome de Down. Falamos de uma via eficaz para a ajuda nas principais dificuldades cognitivas e emocionais nestes casos. Com a devida cautela nas expectativas em relação aos resultados, o Neurofeedback promove o que se procura com qualquer intervenção junto desta população, que passa acima de tudo por um aumento da qualidade de vida da pessoa em todas as suas dimensões.


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