Conforme foi abordado em duas das publicações anteriores, o Neurofeedback é uma técnica que promove a autorregulação do padrão de ativação do cérebro. A intervenção tem início com uma avaliação inicial (ver artigo “EEG Quantitativo e Brainmapping”) que serve de base para a elaboração da intervenção personalizada junto de cada utente (ver artigo “Uma Sessão de Neurofeedback”).
No último artigo publicado foi feita uma descrição do casa real da utente B., acompanhada na clínica NeuroImprove entre Maio de 2017 e Junho de 2018 com recurso ao Neurofeedback (ver artigo “Um Caso Real – O Exemplo da B.). Nesse artigo demos conta da forma como o Neurofeedback pode ter um impacto muito significativo na modulação da atividade de frequência mais baixa produzida pelo cérebro, nomeadamente ao nível da incidência excessiva dos ritmos Delta e Teta que é comum nos quadros de Défice de Atenção, conforme o caso em questão.
No seguimento desse caso, iremos desta feita relatar o caso do L., que apresenta alguns pontos em comum com o caso da B., embora com algumas diferenças com consequências importantes na forma como a intervenção com recurso ao Neurofeedback é programada e posta em prática, e que importa referir nesta altura.
O L. é uma criança do sexo masculino que fez a sua primeira avaliação com recurso ao EEG Quantitativo no dia 21 de dezembro de 2017, tendo na altura 10 anos de idade. A criança tinha o diagnóstico prévio de Défice de Atenção, não se encontrando medicada. As principais dificuldade do L. decorrentes deste quadro clínico prendiam-se com dificuldades nas funções executivas e manutenção da atenção por períodos longos de tempo. Daí resultava uma dificuldade evidente na execução de qualquer tarefa, necessitando de muito mais tempo do que o normalmente necessário para as realizar, tendo estas dificuldades um impacto especial nos resultados e desempenho escolar.
O EEG Quantitativo do L., e o mapa cerebral que dele resulta, pode ser observado na Figura 1 em baixo:
Figura 1
Tal como no caso da B., e num grau visivelmente mais severo, verificamos que no caso do L. existe uma incidência excessiva dos ritmos Delta e Teta observada em todo o escalpe, bem como uma incidência excessiva da atividade do tipo High Beta no lobo frontal. A diferença em relação ao caso anterior – e daí a pertinência em referi-lo neste artigo – prende-se com o facto de estes dados serem relativos à condição de olhos fechado, e não de olhos abertos como nos exemplos relatados nas publicações anteriores.
Quando um dado utente faz a avaliação inicial com recurso ao EEG são feitos dois registos: um na condição em que o utente está com os olhos fechados e outra com os olhos abertos. Estes dois registos prendem-se com as importantes diferenças que se verificam nos padrões de ativação cerebral de qualquer pessoa quando se encontra em cada uma dessas condições. Existem, portanto, dados normativos para cada uma dessas condições, e em alguns casos, as principais desregulações podem ser observáveis em apenas uma delas. O caso do L. é exemplo disso: na condição de olhos abertos não se verificaram desregulações tão evidentes como as registadas na condição de olhos fechados, sendo o padrão fenotípico (típico de um determinado quadro clínico) de Défice de Atenção observável apenas nesta segunda condição.
Tal como na condição de olhos abertos, as sessões de Neurofeedback podem ser adaptadas para as desregulações observadas na condição de olhos fechados. No caso do L., a primeira reavaliação mostrou uma redução significativa na incidência dos ritmos Delta e Teta, conforme é possível observar na Figura 2 em baixo:
Figura 2
Importa nesta altura esclarecer de que forma as sessões de Neurofeedback podem ser adaptadas para incidirem nas desregulações observadas na avaliação, durante a condição de olhos fechados.
Conforme explicado em publicações anteriores, durante uma sessão de Neurofeedback o utente está a ser recompensado de cada vez que o seu padrão de ativação se aproximar do padrão ideal para a sua idade e sexo. Essa recompensa pode assumir diversas formas. Na condição de olhos abertos pode assumir a forma de diferentes tarefas, como jogar um videojogo. Esse videojogo só irá funcionar quando o padrão de ativação cerebral do utente estiver mais próximo da norma para esse utente. Na condição de olhos fechados, as sessões têm que ser adaptadas à impossibilidade de utilizar um estímulo visual. Dessa forma, é comum usar um estímulo auditivo, como ouvir uma música. Tal como com o videojogo, o som só estará disponível nos períodos em que o padrão de ativação do utente estiver mais próximo da norma. É também possível usar um feedback tátil, como uma vibração ou uma fonte de calor. Em todos estes casos, o feedback continua a ser apresentado segundo a mesma premissa, ou seja, como recompensa pela adoção de um padrão de ativação cerebral mais saudável.
A intervenção junto do L. constou igualmente de sessões de Neurofeedback realizadas na condição de olhos abertos. Para uma análise completa dos resultados obtidos no decorrer da intervenção junto deste utente, as figuras em baixo dão conta dos mapas cerebrais obtidos na condição de olhos abertos antes (Figura 3) e depois da intervenção (Figura 4):
Figura 3
Figura 4
Em alguns casos, as principais desregulações justificativas de um quadro clínico ou das dificuldades de um dado utente são claramente mais visíveis na condição de olhos fechados, e a intervenção com recurso ao Neurofeedback deve ser focada nesta condição. A possibilidade de apresentar estímulos auditivos ou outros confere uma grande flexibilidade à intervenção, com a possibilidade de intervir junto de diversos quadros clínicos e padrões de atividade cerebral desregulados.